Farelo de soja: forte aposta de fundos em Chicago aumenta risco de correção nos preços

Apesar da sustentação no curto prazo, concentração de posições compradas, expectativa de maior esmagamento nos Estados Unidos e projeção de safra recorde no Brasil ampliam a possibilidade de pressão sobre as cotações nas próximas semanas.

15 de outubro de 2026 | Inteligência de Mercado Okamoto

O mercado internacional de farelo de soja entrou em um período de atenção diante da elevada concentração de posições compradas por fundos especulativos na Bolsa de Chicago (CBOT). Embora os preços encontrem sustentação em fatores de oferta e demanda no curto prazo, o posicionamento dos investidores aumenta o risco de movimentos mais intensos de queda caso o cenário internacional apresente sinais de enfraquecimento.

Dados da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos Estados Unidos (CFTC), referentes a 6 de outubro, apontam que os fundos mantinham aproximadamente 205 mil contratos líquidos comprados em farelo de soja, equivalentes a cerca de 32% dos contratos em aberto.

Esse posicionamento revela uma concentração expressiva de apostas na valorização da commodity. Na prática, caso os fundamentos de mercado se alterem, parte desses investidores poderá buscar a realização de lucros, intensificando a pressão vendedora em Chicago.

O alerta, entretanto, não representa uma confirmação de queda iminente. O mercado ainda apresenta fatores de sustentação, especialmente relacionados à menor disponibilidade de farelo nos Estados Unidos.

Menor esmagamento americano sustenta o farelo no curto prazo

Um dos principais fatores que têm contribuído para a firmeza das cotações é a redução do processamento de soja nos Estados Unidos.

Dados divulgados nesta quinta-feira (15) pela National Oilseed Processors Association (NOPA) indicaram que o esmagamento americano atingiu 196,3 milhões de bushels em setembro, abaixo dos 203,7 milhões esperados pelo mercado e no menor patamar dos últimos 13 meses.

O resultado reflete, entre outros fatores, paradas de manutenção em unidades industriais e dificuldades pontuais de abastecimento de matéria-prima relacionadas ao andamento da colheita.

O menor processamento reduz a produção de farelo, limitando sua disponibilidade e oferecendo sustentação aos preços.

Ao mesmo tempo, a desvalorização do óleo de soja no mercado internacional tem provocado mudanças na composição da receita das indústrias esmagadoras. Com a menor contribuição do óleo, o farelo passou a representar uma parcela maior do valor econômico obtido com o processamento do grão.

Nesse ambiente, o farelo acumulou valorização de aproximadamente 3,2% no período analisado, enquanto o óleo de soja registrou recuo de 4,5%.

Retomada do esmagamento pode ampliar a oferta nas próximas semanas

Apesar da sustentação atual, as perspectivas para os próximos meses indicam possibilidade de aumento na disponibilidade de farelo.

Nos Estados Unidos, o avanço da colheita de soja tende a melhorar o abastecimento das indústrias. Com a normalização das atividades após as manutenções, a expectativa é de retomada do ritmo de esmagamento entre outubro e novembro.

Esse movimento poderá ampliar a produção de farelo e reduzir parte da pressão sobre a oferta observada recentemente.

Outro fator acompanhado pelo mercado é o comportamento da demanda chinesa. As importações de soja da China registraram retração de 7,7% em setembro, na comparação anual, enquanto o setor de processamento do país enfrenta desafios relacionados ao excesso de capacidade instalada.

Embora novas aquisições chinesas de soja americana possam oferecer suporte pontual aos preços, a continuidade desse movimento será determinante para as expectativas de demanda internacional.

Nesse contexto, uma combinação de maior oferta de farelo e enfraquecimento da demanda poderá estimular a redução das posições compradas pelos fundos, ampliando a volatilidade em Chicago.

Brasil projeta safra recorde, mas entressafra ainda limita a disponibilidade

No mercado brasileiro, as perspectivas também apontam para mudanças na relação entre oferta e demanda.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou nesta quinta-feira uma produção recorde de 181,6 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27, crescimento de 0,7% em relação ao ciclo anterior.

A expectativa de uma grande produção brasileira favorece a perspectiva de maior disponibilidade de matéria-prima para as esmagadoras ao longo de 2027, especialmente com a entrada da nova safra no primeiro trimestre.

Entretanto, até a chegada desse volume, o mercado nacional permanece influenciado pela entressafra e pela demanda de exportação.

Segundo projeções da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), o Brasil poderá exportar aproximadamente 2,55 milhões de toneladas de farelo de soja em outubro, acima das 2,09 milhões de toneladas registradas no mesmo período do ano anterior.

Esse cenário contribui para sustentar a comercialização no mercado físico brasileiro, mesmo diante da possibilidade de ajustes nas cotações internacionais.

Câmbio pode intensificar ou neutralizar movimentos de Chicago

Além dos fundamentos internacionais, o comportamento do dólar continua sendo determinante para a formação dos preços das matérias-primas no Brasil.

Nesta quinta-feira, a moeda americana apresentou valorização de aproximadamente 0,45%, encerrando próxima de R$ 5,05.

A influência cambial é particularmente relevante porque a formação dos preços do farelo brasileiro considera as referências internacionais de Chicago, os prêmios de exportação e a conversão para reais.

Com o prêmio do farelo em Paranaguá próximo da estabilidade para embarques de outubro, as oscilações da bolsa americana e do câmbio assumem maior importância na composição da paridade de exportação.

Dessa forma, uma eventual correção em Chicago não significa necessariamente queda proporcional dos preços no mercado interno. Uma valorização simultânea do dólar poderá compensar parte do recuo internacional.

O cenário político e econômico brasileiro, especialmente diante do segundo turno eleitoral previsto para 25 de outubro, acrescenta um componente de incerteza às expectativas cambiais.

Mercado exige atenção ao momento das compras

A combinação dos fatores atuais aponta para um mercado com sustentação no curto prazo, mas com riscos crescentes de correção à medida que a oferta internacional de farelo se recupere.

A elevada concentração de posições compradas pelos fundos representa um fator adicional de volatilidade, uma vez que eventuais movimentos de realização de lucros podem acelerar ajustes nas cotações.

Entre os indicadores que merecem acompanhamento estão os próximos relatórios de posicionamento da CFTC, a evolução da colheita e do esmagamento americano, as compras chinesas, o comportamento do óleo de soja e as oscilações do dólar.

Para o mercado brasileiro de nutrição animal, o momento reforça a importância de acompanhar não apenas as cotações disponíveis, mas também os fatores que poderão influenciar a formação dos preços e a disponibilidade de matérias-primas nos próximos meses.

A avaliação de diferentes cenários, aliada ao planejamento do abastecimento e ao acompanhamento das condições comerciais, torna-se fundamental para decisões de compra mais bem fundamentadas.

Okamoto | Matéria-Prima Inteligente para o Agro

Fonte: SAFRAS & Mercado | Análise de Mercado – 15 de outubro de 2026.

Informações complementares: CFTC, NOPA, Conab e Anec. Análise e contextualização: Inteligência de Mercado Okamoto.